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Peritos não veem sinal de execução no Cabula

O Departamento de Polícia Técnica (DPT) fez reconstituição da operação da Rondesp (Batalhão de Rondas Especiais da Polícia Militar) que deixou 12 mortos e seis feridos na Vila Moisés, no Cabula, em 6 de fevereiro último, e concluiu que não houve execução, mas que há indícios de que as mortes foram resultado de um confronto entre policiais e os suspeitos. O resultado final do trabalho de reconstituição.

A conclusão contraria investigação independente do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), que afirma que houve "execução sum
ária", o que levou à denúncia de nove PMs pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e tentativa de homicídio.

A denúncia do MP à Justiça foi baseada nos laudos do DPT, nas informações do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Corregedoria da PM e no depoimento de acusados e testemunhas. A reconstituição foi feita pelo DPT a partir das 19h de quarta-feira (27).

"A gente não vê, até agora, nenhum indício [de execução]. Tanto os sobreviventes como os policiais relatam o confronto", disse, em entrevista ao Correio, o perito criminal Isaac Queirós, que comandou os trabalhos com o perito José Carlos Montenegro.

Queirós descarta que as informações dos sobreviventes tenham sido influenciadas pela presença dos acusados. "Não, porque os depoimentos foram realizados separadamente e coincidem com as provas objetivas, que são os laudos, como o de balística e análise do local".

O perito também se posicionou sobre as conclusões do MP. "Os laudos sugerem muitas interpretações, porque você não sabe a posição do corpo exata na hora dos disparos". Ainda de acordo com Queirós, apenas a reconstituição pode determinar a posição de cada pessoa durante o ocorrido.

"É uma interpretação de laudo e conjuntura", apontou o técnico, que citou exemplos como a ausência, no laudo, de tiros de curta distância, chamada "zona de esfumaçamento" ou de zonas de tatuagens, quando a pólvora queima a pele.

Reconstituição

A simulação da operação teve 20 cenas, entre a entrada das três guarnições na Rua Fernando Pedreira, via de acesso à Vila Moisés, e o momento dos disparos. Cerca de 150 pessoas participaram da reconstituição. Segundo o delegado José Alves Bezerra, diretor do DHPP, todos os PMs envolvidos estavam no local. Alguns policiais usaram brucutu (máscara).

De acordo com os peritos, houve contradições que "não comprometem, do tipo lapso de memória, a exemplo da informação de uma das testemunhas que o fato aconteceu às 21h, sendo que a situação foi registrada na madrugada do dia seguinte, por volta da 1h".

Segundo o advogado de quatro dos sobreviventes, Kleber Andrade, seus clientes estavam temerosos durante a reconstituição. Andrade nega que eles sejam criminosos. "Um estava vindo da casa da namorada, o outro estava indo comprar uma maconha, o outro estava de passagem por morar na região", afirma ele, que acrescentou que as vítimas correram ao ver outras pessoas correndo.

ONGs que fazem o acompanhamento do caso também questionaram a simulação. A coordenadora geral da ONG Justiça Global, Sandra Carvalho, também não considerou o resultado isento. "Acreditamos que deve prevalecer a investigação do Ministério Público, por ser uma instituição isenta, ao contrário da polícia. É lamentável que a polícia não tenha mais rigor em suas investigações".

A Anistia Internacional informou que "recolheu relatos de moradores que revelam fortes indícios de execução".